A lavadeira
Que profissão linda, se não fosse os contratempos da meteorologia, mas afinal tudo faz parte da grande arte que é viver.
Ercília era uma mulher solitária com aproximadamente 32 anos, jamais quisera casar, pois tinha dedicado sua vida inteiramente aos cuidados da demência de sua mãe, que se suicidara aos 59 anos movida pelos males causados por uma esquizofrenia paranóica contundente. Mas isso não abateu a coragem desta mulher.
Sozinha na vida sem qualificação nenhuma, mas também era década de 20, graças a Deus não existia a facilidade das máquinas de lavar no interior do Rio Grande. Ela morava em uma casa de pau a pique de onde tinha uma vista privilegiada da lagoa, na saída de sua porta tinha uma bomba de onde colhia a água para seu uso. A casa era muito limpa, o chão era de terra batida de onde nem areia saia, tamanho era o capricho de Ercília. Os móveis eram de sua avó paterna, eram poucos, mas de boa qualidade: uma cama faixa-azul(famosa marca da época), uma cristaleira que destoava com a simplicidade da casa, pois ali ela conservava a pompa de uma época que nem chegou a viver, o fogão era de barro feito no chão da casa, uma mesa de pernas torneadas de louro Feijó denunciava a origem abastada daquela mulher, mas só a origem, porque a vida tinha sido um descortinar de acidentes vivenciais.
Aos 13 anos tinha ficado órfã de pai, homem rico de grandes posses, mas um tio, mal intencionado fez o favor cruel de roubar tudo o que pertencia a Ercília e sua mãe, aquilo deflagrou uma loucura incurável em sua mãe e nunca mais foi à mesma. Ercília precisou mudar-se com sua mãe do confortável casarão em que vivia com os poucos pertences que permitiram que elas levassem. Mas o tio Sr. Euclides Paiva era muito piedoso, cedeu um casebre de pau a pique na beira da lagoa dos patos, em troca da fortuna que tinha se apoderado através de uma procuração assinada com digital do polegar da sua mãe, ela nada sabia de direito, muito menos que nada poderia ser vendido por a filha ser menor de idade, mas a época era de poucas escrúpulos, o casebre foi o que restou para as duas viverem, inclusive a profissão de lavadeira foi uma sugestão dele, pois a fartura de água era grande e os fregueses seriam muitos, inclusive ele.
Ercília e Dona Veridiana mudaram-se no verão escaldante de 33, as responsabilidades de Ercília cresciam com a idade e com a insanidade de sua mãe, sobreviveram os blecautes da segunda guerra, pois nem a luz dos candeeiros poderia ser acesa , foi um período muito triste, pois ela precisava cuidar da mãe e a vigilância era costumas, ela amava muito sua pobre mãe.
A demência de Dona Veridiana era progressiva e um médico da cidade compadecido da sorte da pobre moça que desempenhava seu papel de filha extremosa resolveu internar D.Veridiana para um tratamento de choques, uso da época, e, Ercília apesar de ter apenas 19 anos na época, se manteve ali, trabalhando e guardando o sustento da pobre mãe. Apesar da boa vontade do médico numa das internações de D.Veridiana o medico resolveu mandá-la para uma cidade vizinha a Rio Grande.
Foi muito triste a primeira visita de Ercília ao sanatório em Pelotas, pois apesar de pouca idade, menos de 23 anos, já suportava o peso de tanta responsabilidade.
Ao chegar viu a mãe sentada em um banco do jardim do hospital, seu olhar era de um catatônico, olhava o vazio... Isso foi cruel de mais e a visão de seu tio pela primeira vez fez-se presente, era um homem cruel, que acumulava bens como se acumula roupas sujas, era mais triste ao ver de Ercília do que sua vida cheia de problemas, pois ela chegou a conclusão derradeira que era feliz, porque dormia todas as noites com a inocência enquanto aquele homem avarento dormia com os fantasmas da ganância e da falta de compaixão.
Os anos se sucederam correram como a correnteza da lagoa em tardes de inverno de vento norte.
Entre uma internação e outra de D.Veridiana, Ercília tardou-se na beira da lagoa, pois precisava lavar exatamente a trouxa de farrapos de tio avarento e descuidou-se de D Veridiana, a volta foi uma cena Dantesca que se descortinou na frente de Ercília, sua mãe sacudia na ponta de uma corda a mercê do vento alísio que vinha da lagoa. A dor foi muito mais cortante do que o ódio que sentiu do velho avarento que a obrigou ficar tanto ma beira da lagoa lavando aqueles trapos, por alguns quilos de arroz que dava como se fosse grande pagamento pelo trabalho de Ercília.
Ela superou a dor da perda. Tirou sua mãe dali com muito dificuldade, lavou o corpo gelado, preocupando-se em banhá-lo em água morna, pois o amor verdadeiro embaça a realidade mesmo que cruel.
Sufocou o orgulho, limpou as lágrimas, cobriu cuidadosamente o corpo da mãe, encilhou o pangaré fiel que tinha e rumou ao casarão, quando chegou à porta foi recebida pelo, tio avaro.
- Como é que é, pensei que tinha vendido minhas roupas... (num sorriso irônico falou o velho)
-Tio mamãe morreu... (Com vos embargada entre a dor e o desespero, balbuciou Ercília)
- Melhor pra você guria, afinal aquela louca só te dava trabalho.
Ercília não ousou responder nada, deixou a trouxa de roupas limpas na escadaria, e pensou:
Como pude ainda pensar em trazer os trapos deste trapo!
Pensou no Dr. Ramiro, homem bondoso, que sempre socorreu sua mãe nas piores crises.
Amarrou o pangaré na árvore da praça e correu para a casa do médico. Lá chegando encontrou o consultório que ficava na própria casa totalmente cheio... Já ia virando as costas quando Dr. Ramiro abriu a porta do consultório.
-Ercília... Algum problema com D.Veridiana?
Ercília chorou profundamente e o médico a acolheu, perguntando com insistência o que tinha sucedido ...
-Mamãe se matou doutor... Se matou.
O bom homem abraçou Ercília como se passasse um atestado de bons antecedentes aquele jovem e sofrido coração.
-Calma minha querida vou providenciar tudo, e assim fez. Homem de bem estava ali.
O pior ainda estava por acontecer, poucos dias depois da morte da mãe o tio de Ercília veio ter com ela e o assunto foi terrível...
Era um entardecer morno, de um dia recheado de dor e saudade, quando, alguém bate palmas no portão do casebre...
-Ercília, me desculpe vir assim tão pouco tempo depois de tua mãe morrer, mas acontece que você é jovem e pode trabalhar para pagar onde mora ou então se mudar para outro lugar, pois minha obrigação era com sua mãe esposa de meu irmão.
-Mas titio esta casa não era da mamãe?
-Que nada guria, tua mãe era uma morta de fome quando o Tibério, meu irmão e seu pai casou com ela, ele que era dono de tudo e eu sou o irmão mais velho dele por tanto tudo é meu e depois tua mãe me passou tudo de papel passado, é tudo legal.
- Tio me dê pelo menos alguns dias...
- Posso te fazer uma proposta... Vou mandar a Marta minha criada embora, pois já está velha e não dá conta do trabalho do casarão, quem sabe você toma o lugar dela e paga seu sustento e teto com seu trabalho?
Ercília quase desfalece frente a tanta maldade, mas decidiu apenas há pedir um tempo ao tio. Depois de muito pensar chegou a conclusão que o melhor seria conversar com o Dr. Ramiro, afinal era também seu freguês, médico de sua mãe e grande amigo, quem sabe ele a orientaria com mais tranqüilidade. Dirigiu-se para a casa do médico que ficava a poucas quadras de distância da casa do sovino que tinha por tio.
Era quase uma da tarde quando chegou na casa do Dr Ramiro, ele mesmo abriu a porta pois era um solteirão com mais de 54 anos e convicto, sua governanta estava de folga, coisa bastante difícil pra época.
Ercília era uma mulher muito bonita apesar dos 35 anos de tanto sacrifício, em sua cabeça tinham duas tranças que a circundava numa forma de diadema de um loiro muito dourado, seus olhos eram de um castanho quase mel, seu corpo bem feito de curvas sensuais, coberto por roupas simples e muito surradas. Batendo na porta foi atendida pelo médico homem viril de porte distinto, o cabelo já escasso e grisalhos, mas isso lhe dava um charme maior.
Surpreso pela visita de Ercília abriu um grande sorriso, pois não era dia de entrega de roupas limpas nem a coleta da sujas.
- Ercília, boa tarde, mas que bons ventos a trazem?
-Desculpe doutor, mas na verdade o que me trás aqui é mais um dos meus vendavais.
-Entre, me dê seu casaco...(pegando educadamente o sobretudo surrado da moça e pendurando delicadamente no cabideiro que ficava no hall de entrada).
- Conte-me... Em que posso lhe ser útil.
Ercília enrubesceu, pois aquele homem tão fino, tão bom foi a vida inteira seu refugio seguro, estranho que só naquele momento se sentiu constrangida, mas enfim era mais um episódio trágico em sua vida.
Ela contou toda a trágica trama para o doutor ou pelo menos o que dela sabia...
-Ercília o que você acaba de me relatar é muito sério, seu tio é um homem sem escrúpulos.
(Apesar da cidade ainda ser bem pequena na década de 50 o médico não tinha a menos idéia da verdadeira história daquela família, pois dela só conhecia o que D. Veridiana lhe contara e tudo sempre tão empanado pela demência e Ercília era uma vitima inocente de tudo.)
O médico se posicionou de forma imparcial, entrou em contato com um amigo magistrado, que morava na cidadezinha de São José do Norte relatando-lhe toda a sórdida história. Não tardou o amigo a seguir os tramites legais da lei e chamar o tio de Ercília para explicação legal. Foi um estardalhaço, primeiro o tio tentou intimidar a moça através da culpa, valendo-se da idade avançada, acusando-a de tentar se apossar de seus bens, mas tudo tinha sido feito de forma muito frágil, a documentação que ele tinha era quase toda forjada. Junto ao cartório de imóveis o advogado viu que D. Veridiana jamais deixou de ser dona legal de tudo e Ercília herdeira de direito.
Os papéis se inverteram e Ercília tomou posse de tudo e que não era pouco: armazéns atacado de cebola em São José do Norte, propriedades em Rio Grande, sítio em São Lourenço, grande quantidade de jóias. O seu tio era um homem bastante cruel tentou manchar a reputação da sobrinha levantando suspeitas da sua conduta moral...
Mas nada deu certo, Dr. Ramiro a acompanhou durante toda a trajetória, sempre muito cortes hospedou Ercília no solar, para que a moça se sentisse mais a vontade, solicitou a companhia constante da governanta, D. Anastácia.
No dia do desfecho final em que tudo foi legalmente devolvido a verdadeira dona a surpresa do médico foi tamanha.
O advogado perguntou sobre a necessidade de acusação formal perante a lei, para que ele pagasse pelo mal que fez as duas mulheres, a atitude de Ercília foi imbatível frente a mesquinhez do tio.
-Você é uma guria mal agradecida, que se juntou com este doutorzinho de pataca para me atingir. Agora estou na miséria, tudo era meu, só meu e você me roubou sua sonsa...
O médico firmemente solicitou que ele se abstivesse de tão infeliz comentário, quando de repente uma vos suave se fez firme e Ercília se manifestou diretamente ao tio pela primeira vez.
-Engana-se titio, se pensa realmente que eu vou te jogar dentro de um casebre à beira da lagoa, ou vou-te ,mandar prender por ladrão, ou te humilhar, pois a vida me ensinou que a capacidade de amar é o maior de todos os bens e este quem me deu foi minha mãe, dentro da sua loucura, loucura esta dádiva do senhor...
-Você vai me mandar matar guria...
-Errou de novo titio, já que o senhor gosta tanto de casarões vou lhe dar o de São Lourenço uma boa pensão mensal para que nada lhe falte na velhice e dois criados, espero que fiéis, pois um será o Sr. Olegário seu comparsa em toda trama em roubar mamãe e o outro seu jardineiro, executor de seus desmandos. E que assim seja feito.
Dr. Ramon e o advogado perplexos ouviam o veredicto da altiva mulher. O encanto tomou conta do médico, que não se atrevia a um olhar se quer que não fosse de admiração... Quanta retidão, quanta compaixão, quanta grandeza.
O velho se retirou em murmúrios batendo a porta do velho carro encerrou ali sua capacidade de ferir, pois a menina tinha crescido e madura tornava-se alguém deveras especial.
Os dias se transcorreram, a normalidade voltou na vida dos dois, mas a admiração crescia mutuamente e num daqueles dias lindos de primavera, numa visita inocente de Dr. Ramon a paixão se fez ardente e os dois descobriram, que a vida a pouco começara e o amor tomou forma, as carícias se sucederam e a magia se fez respirável.
E outros dias vieram e mais outros, até que no dia de finados de 1951 Dr. Ramon foi chamado as pressas no casarão da Bacelar, pela criada de Ercília, pois a mesma teve um mal estar e desfaleceu sem mais nem menos... O médico, pediu licença a seus pacientes e foi ter com Ercília, com o coração aos pulos pela preocupação, afinal ela era ainda jovem, que mal poderia estar afetando seu amor...?
Apesar da intimidade a visita se fez profissional, foi quando o médico entre uma pergunta e outra a Ercília percebeu que um tesouro maior rondava sua vida... Outra vida que viria!!!!!
Sua felicidade foi imensa, mas esperou um pouco mais para anunciar a notícia maravilhosa a Ercília, num carinho habitual deixou Ercília certa que não era nada grave.
Os dias se transcorriam quase torturantes para a pobre Ercília, pois seu estômago passou a morar na garganta, foi quando num sábado pela noitinha ao chegar no casarão, levou a amada um pouco mais do que remédios para o enjôo, levou a notícia definitiva de que seria pai e que o casamento se fazia necessário o mais rápido possível.
O casamento foi discreto, com poucos convidados, mas ela fez questão de mandar buscar o tio que já beirava aos setenta e poucos anos e ele veio.
Algo era diferente, quando ele abraçou Ercília, ela sentiu pela primeira vez o BB mexer forte, tão forte que o próprio tio sentiu o toque sutil do sobrinho-neto e pela primeira vez ela viu vida, carinho, quase amor no olhar do velho. O casamento foi uma bênção e seu hospede também, pois por incrível que pareça algo tinha tocado nele, algo de bom e puro, pois quanto mais os dias passavam, mais ele era próximo, mais ele era presente e mais ela era feliz.
O velho de sovina só tinha o jargão do passado, pois apesar de idoso era hábil nos negócios e do que a sobrinha lhe deu ele quadruplicou todos os bens.
Era noite de São João, o minuano soprava forte, assobiava e os dois estavam sós, Ercília e o tio, pois Dr. Ramon estava na Sta. Casa de Misericórdia fazendo plantão, quando a bolsa de Ercília rompeu e tudo foi tão rápido apesar dos 31anos, não dava tempo de chamar o médico e o tio Euclides precisou juntar forças e ai ela viu a figura do pai....
-Minha guriazinha seja forte, já vi muito bezerrinho nascer, não deve ser muito diferente....(apesar da comparação ele era todo afeição).
-E já era quase três da madrugada, o minuano silenciou, a noite imudeceu e um aroma doce envolveu o ar, quando um choro forte anunciou a vida e entre as mãos tremulas do velho estava o mais lindo menino já visto por estas bandas...
Tio Euclides foi uma parteira perfeita e Ercília uma mãe experiente, onde a ternura ditou todas as atitudes a serem tomadas.
Depois do banho e devidamente vestido de azul celeste o BB, mais parecia a figura de um anjo, os primeiros raios da manhã filtravam a janela do casarão da Bacelar, quando o carro do Dr. Ramon anuncia sua chegada em casa, depois de um duro plantão. Ao chegar ao quarto cuidadoso para não despertar a esposa, depara-se com ela tendo ao seio um querubim, ficou perplexo e nem ousou perguntar como aquele milagre acontecera, mas foi fácil adivinhar, quando ao olhar para um pequeno divã, viu Tio Euclides dormindo recostado, com o um soldado valente depois de longa batalha e linda vitória. Dr. Ramon pegou uma coberta e cobriu o tio com carinho e gratidão. Daquele dia em diante acabou-se casarão em São Lourenço, virou casa de veraneio. Tio, passou a ser vovô e muitos anos de felicidade sucederam-se, uma maninha veio ter em companhia de Quidinho, apelido do pequeno Euclides orgulho do velho avô.
Vejo que minha sanidade direciona-se com paz, pois foi um conto de vidas desencontradas, que caminhavam paralelas e convergiram para o verdadeiro amor, feito de perdão e fidelidade.
{Marilda Amaral}
marta
Para um bonde na esquina da rua camélias, desce um homem de 40 anos mais ou menos, seu aspecto é cansado seu jeito de arrumar a gola do, sobretudo denota certa vontade de ficar incógnito, quem seria tão misteriosa figura...
Seu rosto é bonito, traços fortes, nariz reto, boca sensual, e grandes olhos verdes disfarçados pelos longos cílios pretos. Caminha a passos largos em direção da casa número 25,não anda de forma descontraída, seu passo é quase uma marcha militar, aperta o passo quanto mais se aproxima da elegante casa. Aperta a campainha de forma grosseira, num sinal longo.
Abre a porta uma velha senhora envolta num xale preto, suas mãos são trêmulas e mais trêmulas ficam quando olha o homem.
-Lúcio meu filho, o que faz por aqui, seu pai te proibiu de por os pés aqui...
-Calma vovó eu não sou criança e ele tem que aceitar a minha presença afinal minha mãe não tem culpa por nossas diferenças.
A pobre senhora tentou fechar a porta, mas o homem segurou a porta num gesto firme, mas gentil.
-Vovó ele está em casa ou já veio da rua
-Não fale assim, pois ele é seu pai, lhe deves respeito.
-Por favor querida, nem você nem mamãe têm culpa do calhorda que é meu pai, se não perdeu todos os bens ainda foi porque vovô foi mais esperto que ele, já previa o tipo que seria a vida de você e da mamãe.
-Entra filho, seja o que Deus quiser, afinal sua mãe não anda bem de saúde.você sabe que o problema com o seu pai nunca foi este que você diz.
_Mamãe está doente vovó?
_Uma gripe mal curada.
_quero vê-la vovó, por favor vá chamá-la ... Ela está lá em cima?
_sim, eu estava fazendo um chá para ela quando você bateu à porta.(_Apesar de frio o homem tira o sobretudo e o joga sobre o divã no hall de entrada.)
A velha senhora se encaminha em direção da copa onde tem uma xícara de chá sobre a mesa revestida de fina toalha de seda.
O homem a segue sem cerimônia, quando uma vos rouca no alto da escada chama atenção dos dois, era a mãe daquele homem e foi neste momento que as coisas ficaram mais confusas... Eu estou aqui e era como se ninguém tomasse conhecimento da minha presença, o que estarei que fazendo neste lugar .
Aquele homem não me era estranho e algo nele me causava grande emoção.
Eu olhei em direção da escada e as coisas começam a mudar de tempo é como se eu visse o passado através do presente, mas não fiz muita força para entender, pois eu também estava muito confusa, mas comecei a fazer o jogo daquele momento.
Desceu vagarosamente uma mulher com uns 65 anos mais ou menos, rosto côvado pela magreza, era quase esquelética, seu cabelo ralo e pouco tinham, bem poucos que denotavam a cor que algum dia tiveram, pois eram quase todos brancos.fui desperta pela confusão quando o dialogo entre os três começou.
_Mamãe... Naquele quase pranto do homem, vi que estava perplexo pela aparência de sua mãe, que parecia mais velha que sua avó.
Foi para junto dela que desapareceu entre os braços dele um soluço de dor e saudade.
Foi ai que comecei a perceber, a sala tinha um piano de cauda junto à janela que dava para o jardim, sobre ele tinham vários porta-retratos com fotos de família. Mas comecei a ficar cada vez mais aflita, pois o problema maior do que o problema existencial daquela família, era o meu que não tinha a menor idéia do que fazia ali ou quem realmente era, nada daquilo me parecia estranho por completo, mas também nada dizia muita coisa.
Foi quando a vos da senhora que acabava de descer a escada me chamou a realidade.
-Lúcio, meu filho, amado da minha vida agradeço a Deus a bênção de te receber antes que me vá...
_Não diga isso mamãe, eu voltei para ficar e não será o papai que vai me proibir.
_Eu sei filho, mas ele anda muito mais nervoso do que era no tempo da Marta...
Marta...Marta...Este nome não é estranho, quase consegui me lembrar dele, que aflição. E por que esta gente não me vê?
A conversa transcorreu carinhosa entre os três, era quase tranqüilizadora pra mim e nem sabia por quê...
Foi quando o barulho da fechadura da porta da frente chamou atenção de todos até de mim.
E o homem que apareceu de pé na porta era um colosso de Hodes, era um velho forte de barba branca, porte altivo, entrou como se fosse também invisível subiu a escada ignorando totalmente todos. A curiosidade me deixou doida, comecei a perceber como se meu corpo tivesse ficado pesado, quase um cansaço me acometeu, o clima ficou tenso, mas juntei minhas forças e me dirigi para a escada eu usava uma blusa leve branca e uma saia marinho, sei que meu cabelo era bem preto, pois podia ver madeixas dele caídas sobre meus ombros, passando pelo piano uma foto me chamou atenção,
Uma mulher bonita, com olhar doce, estranho na foto usava uma blusa igual a que eu estava.
Minhas pernas pesavam mil quilos subi a escada quase que de arrasto, mas fui até o quarto do homem que entrou por último na história, foi triste o que vi. Vi um homem de joelhos com a mesma foto que tinha em cima do piano entre as mãos que eram grandes, ele chorava convulsivamente, como se quisesse trazer a mulher para fora da foto. Tive quase pena dele se não fosse tanta a afeição que ele me transmitia, apesar de ter sido todo o tempo mencionado pelas duas mulheres e pelo homem, como pivô de uma desgraça qualquer....
Não agüentei me aproximei e algo diferente aconteceu, comecei a me sentir de novo bem, leve, quase pueril.
Aproximei-me dele, quase pude sentir um cheiro de conhaque do seu hálito e quando olhei para ele me assustei, seus olhos marejados de lágrimas refletiram minha imagem e pela primeira vez pude me ver, eu era a mulher da foto que ele tinha nas mãos. Cai sentada, me escorreguei pelo tapete do quarto tentando recobrar a postura vertical , mas foi quando ao apoiar a mão direita no chão não a senti e cai de rosto no tapete, olhava minha mão perplexa, estava ali, mas eu não a sentia. Foi quando Lúcio entrou no quarto e se dirigiu ao homem com desespero na vos...
_Remorsos papai?
_Não nem um pouco, apenas saudade, muito maior depois que vi você que me fez rever toda a dor que carrego à tantos anos.
_Deixe-me em paz volte para o Sues, mas não leve de mim o que você me deu de melhor.
A conversa era enrolada, sem nexo, não sei se discutiam ou se recordavam algo que os machucava de mais.
Foi quando Lucio avançou para o pai, num desespero quase trágico gritando:
_Solte a foto da minha Marta, pois se não fosse você ela e meu filho ainda viveriam e na luta o porta retratos cai diante de mim e foi como se me revisse no espelho e desmaiei.
Algo aconteceu, pois quando acordei estava no banco de traz do carro, parecia tão gordinha, na frente estavam Sr. Francisco e Lúcio, discutiam porque ambos queriam por o nome no BB que estava na minha barriga, estranho, mas eu começava a me lembrar de tudo era como se eu fosse parte de tudo.
Era noite e estávamos numa rua larga e na nossa frente os trilhos do trem e o bate-boca tirou a atenção de todos e o pior aconteceu, só senti o contorcer dos ferros em mim nada doía apenas minha mão que não estava mais presa ao braço e minha barriga que se espremeu totalmente contra mim, na verdade nos tornamos um só e cai num sono profundo, acordei somente hoje na esquina da rua das Camélias quando vi o bonde parar.
Como poderia dizer a todos que sentia muito, que não queria ter comigo a culpa de alguém pela minha sorte se culpar, foi quando uma menina de cachinhos negros se aproximou me dizendo:
_Não tente ser melhor do que é mamãe, eles nos mataram e eu nem era um menino.
Mas teremos a nossa vez, prometo. Prometer...Como ela era uma criança.
A vos dos homens me fizeram recobrar a consciência e de costas no tapete do quarto ouvi Lúcio dizer:
-Papai, chega de tanta dor... Aconteceu amávamos Marta, sei que era uma filha para você e o grande amor de minha vida, mas quero que saiba, conheci alguém no Egito que lembra em tudo nossa Marta, até na beleza e você vai ser avô, falta pouco para que o BB nasça, na verdade o médico está bem desconfiado que sejam dois BBs.
O velho parou de brigar levantou o retrato do chão como se pedisse perdão em tudo que fazia.
-Você tem razão meu filho, traga sua esposa quero que se sinta feliz aqui conosco.
Os dias se passaram, as visitas se sucederam a amizade parece que floresceu, eu me sentia meio amedrontada, com a menina que todo o tempo me acompanhava, mas passei a me acostumar com ela e controlar o gênio forte que tinha.
Até que um dia Nefri a esposa de Lúcio acordou a casa toda, eram as dores do parto, estranho que a menina se abraçou pela primeira vez com ternura em mim, eu a vi ficar cada vez mais transparente e senti uma forte dor nos pulmões como se me dilacerasse por dentro, soltei um grito desesperado, quando percebi estava nos braços de Nefri e Francisco me beijava carinhoso, todos estavam a minha volta a mãe de Lucio estava forte, linda como sempre fora, mas a vos da menina me cobrava a separação. Vi bem quando minha avó Celeste me deu o nome, e todos aceitaram.
Ela se chamara Marta e eu cai num profundo sono de paz, certa que conseguirei remendar cada pedacinho desta cortina da vida rasgada pelos tempos de dor.
E Viva a Marta!
Uma luz no fim do túnel
Sempre achei este jargão bastante fantasioso, quando estava aqui na terra, hoje para mim, bem enganosa, mas minha situação frente minha realidade me faz crer que realmente estas coisas existam, porque as vivo.
Meu nome é Benito, moro há muito tempo no umbral se pode dizer que lá algo seja alto, estou no alto umbral, já passei por diversos processos de purificação e expiação, tenho contato constante com os irmãos das colônias. Na verdade sirvo de conexão entre os menos favorecidos, mas isso não quer dizer que eu seja melhor do que qualquer um que lá esteja sou apenas uma ferramenta a mais para o progresso de mim mesmo.
Hoje respeito certos preceitos que antes ignorava totalmente, um deles é a condição de visitante terrestre, hoje só vou ai quando solicitado e a cargo dos irmãos das colônias. Meu cargo é bem importante, pois sirvo de conexão, resgatando irmãos perturbados que fogem do umbral, pois aqui a porta é muito tênue e a terra muito próxima os corpos são quase todos densos e ainda presos aos vícios carnais, vitimas das ilusões terrestres. Aprendi muita coisa nesta caminhada, uma delas é que viver no umbral também pode ser escolha nossa e eu apesar de estar aqui há muitos anos, pretendo ficar aqui outros tantos. Minha doação incondicional aos irmãos, causa-me felicidade e me torna necessário. Tenho alguns privilégios dados por méritos prestados. Conheço uma colônia , chama-se Portal da Fé, na verdade minhas visitas nunca passaram do pronto atendimento lá existente, mas isso me deu a idéia exata de quanto ainda tenho que progredir. Os irmãos de lá são muito generosos e muito amigos, tratam-me com cordialidade, respeito e amor fraterno. Já tenho a noção exata da força do amor. Para que não incorram no erro de me achar mais merecedor do que sou vou relatar-lhes um pouco da minha trajetória envolvendo meu egoísmo, egocentrismo e minha total falta de amor enquanto aqui na terra vivi.
Nasci numa cidade do interior de São Paulo, mais precisamente em Itanhaém, estudei na escola de Belas Artes no Rio de Janeiro, fui estruturado na Missão artística Francesa, sei que minha arte hoje é reconhecida, mas na época eu era uma fraude para mim. Era um deprimido tudo que eu fazia nunca era bom de mais, jogava fora todo o dom que Deus me dera, negava ao mundo a beleza que hoje representa para mim o resgate de uma existência mal vivida.
Ai!...Artista do vosso tempo não subjugue vossa arte, pois isso será sem dúvida um degrau a menos na sua evolução espiritual, me acredite lhe custara anos de acerto de contas entre você e o criador, pois ninguém tem o direito de tirar dos outros o deleite da beleza, só porque seu egocentrismo dita um padrão superior... Já pensou que aquilo que não te agrada, pode ser néctar aos olhos, ouvidos de outros. A arte é algo subjetivo em que uma música ou uma pintura ou ainda o traço verdadeiro da amenidade de palavras bem escritas, podem causar a pessoas diferentes, verdades igualmente diferentes. Por quê então seu egoísmo atropela a generosidade a quem sua arte deveria servir?
Acredite sei que a terra depende também das coisas materiais, em que o homem precisa de trabalho, para viver e ganhar seu sustento, você poderia me dizer vou viver de música mal escrita, arte não reconhecida ou ainda de livros que nunca vão chegar a ser lidos?
Eu te responderei, faça sua arte nem que seja em teus momentos de laser, pois se dão prazer a uma pessoa só que seja , ela merece ser feita, porque se não, seu tempo aqui onde hoje estou será cobrado e a arte aqui é a de refazer caminhada até encontrar a saída dos erros cometidos.
Já deu de perceber que fui um artista prepotente e cheio de chavões pretensiosos, não servi ao meu tempo como devia, vi o cativeiro de perto, fiz de conta que me importava, mas na verdade joguei sujo com a vida, fui omisso com meu dom, preconceituoso com a época e retardatário no meu próprio tempo.
Como parti da terra, isso não vem ao caso, a época em que vivi nem tanto, mas o que fiz da minha vida pode servir de alerta a quem está deixando passar em bruma a existência terrestre.
Imponham-se frente à falta de fé em si próprio, e lance notas ao ar, tinta na tela, palavras ao vento, pois isso é arte, veja comigo siga a linha do meu pensamento...
Francisco Manoel da Silva compôs o hino nacional, até hoje nem todos ouvem esta obra com a magnitude que ela encerra, com a beleza que ela traduz, Carlos Gomes compôs o Guarani, você me dirá que é uma obra de arte, mas será que todos gostam de Carlos Gomes, será que ele mesmo gostava do que fazia...
Nas letras poderia citar mil nomes e ainda você me diria que metade admira e a outra metade detesta, mas é maná para quem gosta.
Na pintura o mundo passou por diversas fazes e acreditem, quando Picasso, Dali e outros tantos pintaram, será que tudo foi tão fácil, mas hoje fazem parte da beleza do vosso tempo...
Estou aqui a muitos... Muitos... E muitos anos a cada irmão que auxilio, pinto um quadro diferente e acreditem vou precisar de referência até na eternidade, pois dependo do que vejo para o que pinto, mesmo vendo com os olhos da alma.
Amo ser útil e amo aos que úteis são, pois somos pequenos postos do Manancial Divino.
Poderia contar-lhes mil casos terríveis, emocionantes, tristes, cômicos que aqui vivi, mas vou deter-me em falar sobre o maior erro que cometi, não dar valor a um presente de Deus, a arte.
Não importa o tempo que você leva para criar, nem que seja uma só melodia, um só poema ou um só quadro, não se abstenha de fazer, pois será útil na vida de alguém, mesmo que não seja na tua.
O impostor
Sou um velho amigo de Maori, talvez o mais antigo de todos, pois vivemos em vários tempos, aprendemos várias coisas juntos, fizemos grandes coisas em parceria, por incrível que pareça nunca fomos nada, que não grandes amigos. Acredito que por isso estou me fazendo mais presente a cada dia. Creio que ela precise de mim, pois mais uma vez vai se deixar atingir pela condição improvável de bondade de Assis. Sou Benito personagem de vários contos que virão escritos pela fertilidade da imaginação sem freio, desta amiga tão querida.
Assis é o nome do antigo consorte de Laura, ele foi um companheiro nada generoso em sua última estada na terra, que já é bem distante.
Mais ou menos nos meados de 1910 consumavam uma união totalmente instável... Maori e Assis ela uma corista do Cassino da Urca, ele um policial civil.
O ciúme era uma constante naquela união, Assis via em cada sombra um amante em potencial para a pobre Maori, não importava o quanto ela fosse honesta. Ele era um boêmio nato e um policial sem ética.
Maori era filha de uma mulata brasileira com um japonês imigrante de Nagazaky. A sua criação tinha sido muito severa por parte do pai, que tinha em sua etnia preceitos nada convencionais para um país de terceiro mundo, em que a maioria dos habitantes era de origem negra e que tinham costumes expansivos, gostavam naturalmente da música quente da terra. Muito cedo Maori demonstrou sua capacidade de fazer do seu corpo uma arma de sedução, mesmo que sem querer, pois a música, a dança estava em seus genes, descendência materna.
Num domingo de setembro chegou um circo, em Friburgo, serra do Rio de Janeiro onde moravam. Maori tinha só 16 anos e com muito sacrifício convenceu seu velho pai deixá-la ir com sua amiga Constância e sua mãe Severina. Como era de se esperar na ânsia de contar tanta coisa linda e diferente que tinha visto a sua mãe D. Ana, pôs-se a fazer passos cadenciados a palmas de uma marchinha carnavalesca, foi interrompida com violência pelo Sr. Tanaka, que a destratou como uma mulher qualquer e naquela época não era costume uma mãe contrapor a postura do pai. Maori tinha um sangue quente na época e ousou contrariar Sr. Tanaka, dizendo que ia ser artista e foi o suficiente para anoitecer com uma trouxa nas costas na estação de trem com 6 contos de réis na mão, que seria o valor da passagem de ida para algum lugar longe da vergonha e da severidade de seu pai.
Passou o trem das oito da noite e aquela menina tão inocente era jogada ao mundo pela intransigência de um homem, muito mais velho que seu próprio tempo.
Enquanto o trem descia a serra ela desfazia seus sonhos com medo e desespero, a noite cada vez era mais negra. Para onde iria ... O que faria, nunca tinha saído de casa nem para visitar os tios em São Paulo, irmãos de Sr. Tanaka e agora estava sozinha e não entendia nem o motivo de tanta ira do seu pai.
Quando a maria-fumaça parou na estação do Rio o medo foi muito maior, pois estava com fome, foi então que conheceu Maria Deocledina, uma dançarina do cassino, que vinha no mesmo trem de uma turnê com sua companhia de revistas a Friburgo.
A sorte de Maori estava lançada. Maria aproximou-se como se adivinhasse o drama da moça.
-Moça é perigoso ficar parada na estação... Para onde você vai?
E num breve explanar de tristezas contou a Maria sua história , quase trágica. Num balançar de cabeça, Maria afastou-se em direção de um velho gordo que fumava um charuto sem parar, na verdade era o dono da trupe de artistas, ele olhou para traz como se conferisse uma mercadoria. E esboçou um sorriso malicioso gesticulando com a cabeça, um sim definitivo.
Maria Deocledina voltou ter junto a Maori dando-lhe as boas novas.
_Como se chamam moça?
_Chamo-me Maori e a senhora?
_Nada de senhoria entre nós minha pequena, sou só Deo para os amigos.
_Você quer tentar ser dançarina no Cassino da Urca? A final você é uma mulher muito exótica, faria sucesso...
_Exótica? O que significa isso Deo?
_Mais que bonita minha cara, significa ser diferente.
A escolha era ir ou ir... E Maori pôs-se a caminho levando sua pequena trouxa de baixo do braço, foi quando eu a vi pela primeira vez naquela encarnação. Eu era o pianista do Cassino, na verdade poucas foram às vezes que vim na terra sem ser um artista. Ela nos acompanhava sempre três passos atrás de nós como se nos temesse, mas de nós precisasse.
Pobre Maori, não sei se fomos a melhor escolha de sua vida, mas eu e Deo pelo menos tínhamos uma simpatia pura pela moça.
Desculpe esqueci de me apresentar formalmente, afinal vocês me conhecem como Benito, mas naquela trajetória eu era Rodolfo, um pianista de nome no meio e na época.
Fomos em direção dos carros de praça, que estavam estacionados no ponto junto a rua Boa viagem. Embarcamos em dois carros, pois tínhamos bagagens e pessoas extras a um só veículo. Lembro-me como se fosse hoje Maori estava parada, estática quase apavorada com tudo, quando Sr. Villar fez sinal que entrasse no nosso carro, ela sentou-se junto a janelinha como se quisesse fugir dali e estar junto com sua mãe, mas na verdade, sua mãe já era passado.
Atravessamos o corredor que tinha junto ao Cassino era na rua subimos a escadaria de mármore onde ficava nossa casa, era um tipo de república coletiva que o Sr. Villar mantinha para seus artistas, saia mais barato para ele, nos manter sob sua proteção. O casarão era lindo tinha salões amplos, múltiplos aposentos onde as coristas e dançarinas ficavam, eu era um dos poucos homens que moravam naquela palacete exceto Sr. Villar nosso empresário.
Os dias se passavam e Maori exercia funções domésticas, era como se Villar tivesse se esquecido dela, foi quando Ramira nossa vedete torcera o pé numa apresentação, precisou de repouso prolongado. Era um show complexo onde tinham varias vedetes, plumas e muito samba, mas mal sabíamos que Maori via e aprendia tudo muito rápido, não ganhava nada como ajudante de cozinha, mas foi quando tímida pela primeira vez se fez ouvir no meio do salão.
Villar esbravejava a má sorte de Ramira ter se acidentado, foi quando Maori se aproximou do piano e falou baixinho em meu ouvido...
_Rodolfo eu sei tudinho que Ramira faz, até a música que ela canta.
Eu não acreditei, mas esperei pelo dia seguinte, contei para Deo e numa das saídas de Villar, juntamos todas as vedetes e com a ajuda de Ramira, Maori fez um sucesso incrível. Foi preciso ajustar toda a roupa, pois Ramira tinha polegadas a mais que Maori, não havia tempo para mudança dos cartazes de chamada do show do cassino, mas improvisamos tudo e no ensaio geral, com figurino, música e dança chamamos Villar para ver o teste da nova aquisição da casa, corríamos um grande risco, pois se Villar não gostasse estaríamos todos fritos.
Ele insistia comigo para que dissesse de onde tinha tirado uma vedete, para um show com tanta rapidez, pois levava pelo menos um mês para ensaiarmos tudo até a apresentação.
Era um chorinho muito lindo, que posteriormente uma cantora muito famosa gravaria, chamava-se tico-tico no fubá, o palco era uma escadaria de mármore, o luxo dos adornos era de um esmero só.
Na coxia Villar aguardava a nova vedete, foi quando desce assombrosamente linda a escadaria a vedete dona das mais belas formas, com a mais bela voz e o mais sensual gingado. Villar custou a reconhecê-la, pois Deo e Ramira se esmeraram em tudo e o sucesso foi certeiro.
_Não acredito... Rodolfo é aquela garota que trouxemos de Friburgo? Menino que formas! Está contratada.
O dinheiro que ganhava era muito mais que poderia gastar e entre um show e outro começou ser cortejada por um policial freqüentador do Cassino. Tentamos prevenir Maori da má escolha, pois o homem tinha fama de jogador e explorador de damas da noite. Mas nossas escolhas são previamente feitas e eu não sabia disso na época. Até que um dia ela me disse que tinha comprado uma casa na Lapa, que era bem confortável e que pretendia fazer uma vida longe dos palcos, que na verdade queria ser esposa e mãe, sonhos de menina do interior, mas quem era eu para dissuadi-la ... A cerimônia do casamento foi bem alegre, ele chegou a nos enganar, mostrando-se tão gentil e amável. Ela me confidenciou que ele tinha ciúme dela comigo, isso me fez recuar um pouco apesar de continuar sendo seu amigo.
Até que um dia Deo me disse que ia ver Maori na Stª Casa de Misericórdia, pensei que tinha tido criança ou coisa assim, mas que nada... Era uma das muitas surras que ele tinha dado nela por ciúme. Ele era um devasso, homem sem nenhum atributo moral. Era contraventor, gigolô de mulheres da vida e além de não respeitar a saúde da sua esposa, pois na visita de Deo a Maori ela descobriu que Maori estava muito mais que roxa de pancadas, estava seriamente doente, pois o médico disse que ela era portadora de sífilis e tuberculose. Era tão injusto com a pobre moça que via esvair-se em si a beleza e a saúde.
Eu me tornei presente no decorrer de sua enfermidade, pois era muito mais cômodo para ele que outra pessoa assumisse suas responsabilidades, ai, ele não tinha mais ciúme, era até meu amigo. Pouco ele visitava a esposa na casa de saúde, na verdade quase nada o pouco que o vi, foi para que ela assinasse uma procuração dando-lhe plenos poderes sobre seus bens, como eu não sabia quem mais era merecedor de tanta sorte, se ele ou o pai dela, resolvi tornar-me ausente do assunto, a única coisa que fiz foi levar até ela um tabelião. Poucos meses se passaram e ela foi a óbito, ele realmente não derramou uma lágrima, durante toda a cerimônia fúnebre ele mencionou o possível testamento, por que ele na verdade não tinha casado no civil, provavelmente tinha medo de uma possível separação, porém almejava os bens da falecida.
Trinta dias decorridos do funeral fomos procurados por um tabelião e um advogado, fiquei surpreso, Maori era mais esclarecida do que parecia. Quando chegamos ao cartório não sei se a surpresa nossa foi maior do que a dele.
_Quem mandou chamá-los? Indagou ele.
_ O tabelião. Respondeu secamente Deo, pois tinha uma notória antipatia pelo quase meliante.
_Não estou entendendo nada, pois eu sou o marido da morta.
A maneira como se referiu a Maori me causou nojo, pois ela era uma mulher encantadora, com 28 anos deixou este mundo por culpa de um impostor, que sabotou sua vida e tentou roubar suas economias. Foi quando entrou o tabelião e o advogado seriamente se dirigiram a uma mesa, abriram um livro e começaram a ler a partilha segundo a vontade da falecida.
Aos 24 dias do mês de agosto, lavro o testamento de Maori da Silva Tanaka, seguindo sua vontade feita sob a constatação de suas faculdades mentais, tendo como testemunha o Dr. Raul Silveira Medina, médico da santa. Casa de misericórdia desta cidade, casado e morador na rua das Missões 56 e Messias Januário Costa Brum, comerciante, morador na rua Beira Mar 456. Relata o espólio o seguinte:
Eu Maori da Silva Tanaka deixo minha casa , localizada na rua Fidalga Martins 77 em Friburgo para minha mãe Laura da Silva Tanaka,
Minha casa da Rua Venceslau Escobar 585 no bairro da Lapa para um possível asilo mantido pela sta. Casa deste município.
Minhas jóias, depositadas na Caixa Econômica Federal para minhas amigas Maria Deocledina Ribeiro e Ramira Conceição Menezes em partes iguais.
Para meu amigo Villar 4.000 contos de réis para usar como ajuda de custo no investimento de novas vedetes, principalmente se estiverem desamparadas..
E os outros 6.000 contos de réis ao meu amigo Rodolfo Artigas Flores. Completando assim a soma de 10.000 mil contos de réis, minhas economias de uma vida de alegria e beleza.
Aos meus amados pai e esposo deixo o meu muito obrigado, pelas lições de vida, pois foi através deles, que aprendi a reconhecer o que de melhor a vida nos dá, por isso deixo tudo o que tenho de material aqueles que amenizaram as dores de tanto conhecimento.
Hoje sou alguém que vive a remendar os erros do meu passado e minha atual missão é defender Maori do assédio espiritual de Assis que não esquece que um dia ela soube dar o troco com maturidade.
Na minha condição de um dos guardiões do umbral em que vivo e que Assis até hoje vaga no vale dos suicidas, levado pelos 7 pecados capitais, inclusive paga pelo ceifar de sua própria vida.
A Maori foi dado o direito de reencarnar para uma trajetória de aperfeiçoamento na terra para novas responsabilidades na colônia a quem sirvo.
Ela hoje se dedica aos doentes, cuida com desvelo de seus enfermos, pois em outras passagens já refez vários caminhos, todos rumo ao progresso espiritual. Minha missão é capturar Assis, para que ele não assedie minha doce amiga e deixe que ela complete esta etapa com sucesso. Acredito que esta seja uma missão difícil, pois ele continua o embuste que sempre foi, nega até hoje o direito de escolha de Maori e acredita ser dono dela, ignora todas as leis da probabilidade. Tenho tido ajuda de Deo, que ainda desencarnada mora na colônia para onde Maori retornara. Na sua atual encarnação Maori chama-se Laura, é casada, tem dois filhos, na verdade casou com Villar, atualmente chamado Jairo. Não é um primor de marido, mas pelo menos aprendeu a ser um bom pai e verdadeiro com seus rebentos..
A atual missão minha e de Deo é, enquanto Deo se dedica a guarnecer Laura eu me empenho em recapturar Assis e tentar ajudá-lo a compreender o verdadeiro caminho do progresso espiritual.
Encontro com Assis
Um de meus quadros retrata o valor do reconhecimento dos grandes erros, continuo pintando aqui no meu posto de ordenança.
Fui chamado por Deocledina, era um pedido de socorro da terra, por irmãos encarnados e solidários em prol de uma irmã assediada por um embuste.
Irmãos queridos era Assis, que queria a posse de sua prenda, a minha querida amiga Maori, que como Laura se preparava para uma nova partida depois de ser lapidada pela vida terrena rumo ao progresso espiritual. Precisava cumprir a missão de trabalhar a cura das dores da alma, mais do que a cura do corpo. Precisava estudar sobre o valor da espiritualidade, pois por diversas vezes tinha se perdido nesta busca, mas por vigilância de Deo descobrimos que a culpa mais uma vez recaia no egoísmo de Assis. Precisávamos fazê-lo entender que as paixões da carne são efêmeras e que o amor fraterno é o único capaz de refazer caminhos e o altruísmo a maior arma a ser usada.
Ao chegara a casa onde ai acontecer a doutrinação de Assis observei, que vários irmãos do umbral lá se encontravam e como todos me conheciam, mantiveram-se calmos pois minha postura era sempre severa, porém fraterna. Eu estava sendo auxiliado por Deo e Ramira, minha amiga de tantas lutas.
Quando fui advertido por Assis, que não tomasse partido, pois ele também era forte. Eu argumentei que meu propósito não era medir forças e sim mostrar para ele que o caminho da luz, poderia servir de grande alivio para todos e que aquela obsessão era desmedida, descabida, que só causava dor e sofrimento não só a Laura, mas também a ele.
Foi quando observei que tínhamos conosco um benfeitor benevolente da colônia, muito interessado em Assis, pois ele era um potencial para o umbral, pois sua última profissão na terra tinha lhe dado muita experiência com fugitivos. Tentou argumentar com Assis que Maori era um ser em evolução e que ele também cedo ou tarde estaria na mesma estrada, porém Assis era irredutível baseando-se nas paixões terrenas, negava-se a compreender sua condição de desencarnado.
Foi quando veio em nosso socorro uma irmã muito querida de grandes lutas anteriores com diferentes irmãos na mesma condição de Assis, ela era de uma luz radiante, refletia sua pureza d’alma, era uma grande guerreira. Na verdade foi na terra uma mulher de grandes valores morais. Tinha uma calma admirável, falava com firmeza e decisão no que dizia.
Foi quando se dirigiu a Assis com ternura, porém com muito conhecimento de causa advertindo do perigo que corria, pois existe também no mundo espiritual ação e reação...
Ele com ar zombeteiro perguntou, que perigo poderia ele correr, pois para ele o mundo em que vivia não tinha fronteiras e que na verdade dele nada ficava oculto.
Irmã Amélia olhou para ele com, piedade e disse:
_Amado irmão sua reencarnação está próxima, mas preciso saber uma coisa de você... Se tivesse poder para castigar Maori que castigo a impingirias se achas que ela é merecedora disso...
_Queria que vagasse sem lembranças pelo mundo, sem família, sem amor, sozinha, sem ninguém, sem pouso e sem felicidade.
-Por que tanto ódio?
-Porque eu amo ela e ela nunca reconheceu meu desespero em sentir isso tão forte e seu reconhecimento foi dar tudo que tinha, para uma cambada de gente desocupada.
-Meu irmãozinho veja bem o que diz...Você não fala de amor, fala de posses e no mundo em que vivemos estes bens de nada representam, se não um grande fardo que nos separa do nosso progresso.
-Não confunda gratidão com burrice, nem reconhecimento com reprovação; pois quando ela dividiu seu espólio deu a cada o que era de direito.
_Para os velhos necessitados deu um teto, para sua mãe deu um lar que após sua morte serviu de repouso.
Para seus amigos deu a possibilidade de crescimento moral na terra, pois lhes deu possibilidade de ganho honesto.
Mas para você e o pai, deu o que tinha de melhor, o agradecimento, pelo poder de ourives que tiveram sobre suas jóias morais, pena que você desperdiça seu tempo em busca de uma coisa que jamais existira, vingança contra Maori, pois ela foi uma possibilidade que tivestes de te tornares um ser melhores.
_Não me confunda sua velha tonta.
_Que bom Assis, pois se estás em confusão é porque a cura se faz eminente.
Procure refletir sobre tudo o que fizestes da tua vida encarnado acredite não terás muito do que te orgulha r.
Assis caiu num pranto e tentou correr de onde estava, mas foi detido pelo pedido de perdão e pelo perdão doado a si por Laura.
Todos observavam Assis com calma e muito carinho e as orações dos irmãos encarnados se faziam presentes, isso o deixava cada vez mais fraco, mas na verdade deixavam ele menos denso, mais espiritual.
Foi quando ele olhou para mim pela primeira vez com respeito e disse:
_Leve-me de volta, preciso descansar.
E eu o levei pela mão, no caminho ele me perguntou como poderia se livrar daquele sentimento de culpa. Não me contive com a pergunta e respondi com outra pergunta.
_Você se sente culpado de quê?
_De ser tão pobre de espírito.
Senti-me em júbilo, pois era um progresso maravilhoso a vontade de melhorar daquela pobre alma.
Não detectei novas fugas de Assis, ele começou a ser solidário com a desgraça alheia no vale, isso chamou atenção dos irmãos amparadores, que faziam visitas cada vez mais freqüentes no umbral... Deixaram de ouvir os xingamentos de Assis e em troca ouviam dele uma espécie de oração disfarçada em melodia e nessa oração ele pedia perdão a Deus e a Maori. Eu me sentia em plena alegria, me rejubilava pelo progresso daquela alma.
Até que um dia recebi uma ordem direta de D.Amélia, que viesse ter com ela na entrada da colônia, pois estava sendo recrutado para servir dentro de seu portal. Senti-me feliz de mais, mas pensei nas almas que deixaria de ajudar. Ela me afirmou que tinha um novo guardião em vista e era um bom rastreador, pois estava-se tornando generoso, compreensivo, quase pronto. Eu perguntei quem era o irmão. Ela respondeu com carinho que era Assis.
Olhei meus pés, pela primeira vez durante um século os vi calçados por sandálias confortáveis, minhas vestes eram claras de um linho puro, estava pronto para nossa partida, quando fui encontrado por Assis que fez questão de acompanhar-nos até a entrada da colônia, despediu-se de mim num abraço fraterno e pediu-me que deixasse meus quadros em seu recanto, pois eles os ajudariam a vencer todas as vicissitudes espirituais. Eu geralmente desenhava quadros sobre a vitória do bem, sobre cada um dos pecados carnais e meu último quadro pintado no umbral foi sobre a vitória de Assis sobre a ira e a avareza.
Laura continua sua caminhada, reforçando o progresso de Assis com suas preces desinteressadas e ele retribui com seu cuidado zeloso, muitas vezes já surpreendi Assis velando o sono de Laura, guarnecendo seu sono, para que os pesadelos do passado não a assombrassem. Bendita seja a vontade suprema de Deus no progresso e no livre arbítrio do homem.
Benito chega a Colônia Portal da Fé.
Aproximo-me da pilastra que sustenta a entrada da colônia, na verdade é feita da fé de todos que por ali passam. D. Amélia me esperava com dois irmãos, que na verdade era Deocledina, amiga muito amada e Vitório, um amigo muito querido de duas reencarnações anteriores. Foi uma espécie de aprendiz de arquitetura na velha Itália, mais precisamente Florença um berço da arte.
Minha reação foi de serenidade, pensei que o dia que entrasse na Colônia além do pronto atendimento, que era meu limite permitido, explodiria de alegria, mas na verdade tive toda a alegria de direito, mas recebida com tranqüilidade, foi uma alegria que me encharcou os sentidos da alma, bem diferentes dos do corpo. Minhas necessidades não eram mais tão carnais, eram etéreas, voláteis.
O caminho que distanciava o alto umbral da colônia era semi-árido, um espaço amplo com campos verdejantes , quanto maior era a proximidade com a colônia, era como se o ar ficasse tão leve que a necessidade de respirar se tornava inexistente.
Ao ultrapassar os portais do pronto atendimento, por onde passei rapidamente, observei que um grupo de jovens cruzou por nós três, numa saudação quase que celestial. Seriam anjos?
Não ousei perguntar, foi então que descobri que nem sempre seria preciso balbuciar para ser entendido naquele lugar, quando fui surpreendido por um gracejo simpático de uma das moças do grupo...
_Quem nos dera Benito... Somos estudantes da fé humana em busca do próprio progresso.
Na verdade eu me sentia um recém convertido, pois minha confiança no lugar que estava, transcendia a força para alcançar um constante progresso pessoal, visando todo um coletivo.
Minha visão a respeito da Colônia ficava muito longe daquilo que eu fazia dela, pois pensava que lugar de tarefas difíceis era o umbral, que as colônias eram lugares de paz eterna, onde sob coro de anjos repousaria a eternidade. Que ingenuidade a minha na verdade a Colônia é um lugar de eterno recomeçar, estudar, resgatar, vencer limites, com a diferença que ali tínhamos a noção de nossos atos e a recompensa de nossas boas ações. Era um lugar onde almas itinerantes tinham a possibilidade da reciclagem, pelo menos onde eu estava era assim. Ali receberíamos instrução, refaríamos trajetórias de forma consciente das nossas faltas pregressas, na realidade era um posto para reencarnantes, ali seriamos preparados para uma nova chance. E depois de muitos anos, tive a possibilidade de recomeçar algo, que sempre deixei inacabado. As descobertas eram constantes, eu me relacionava cada dia com um instrutor diferente, onde me incutiam noções profundas de moral, conceitos de trabalho e de tarefas bem acabadas. Estava sendo dada a mim uma chance de progresso, visando àquilo que sempre sonhei, meu coro de anjos, afinal como me disse um dia Celeste, minha instrutora de ética humana: _ O progresso é a única saída para qualquer homem, mesmo que para isso ele tenha que recomeçar mil vezes, mil séculos, um dia ele chegara a Deus, mas até que isso aconteça, vamos aprender com nossas faltas e acertos. Como sempre vem do Criador a lei do livre arbítrio, pelo amor que tem a nossa integridade.
E eu aprendia enquanto trabalhava muito, pois passei a dar apoio ao meu amigo Assis eu era uma espécie de amparador de almas arrependidas em busca de salvação. Seguidamente eu ia ao Umbral, mas aí aprendi a necessidade de revestir-me da verdadeira fé, pois os perigos que rondam aquele lugar são inimagináveis, e eu vivi tanto tempo lá pensando que sabia tudo e que controlava tudo que estava em meu alcance, foi quando percebi que a prepotência continuava em mim e era sem dúvidas um dos limites a vencer.
Na verdade eu me achava tão acessível enquanto morador do umbral, mas hoje percebo que aos amigos da colônia eu deveria ser um espírito muito rebelde, talvez inteligente, mas muito teimoso, foi preciso à ajuda de um mais teimoso que eu, para que eu entendesse o verdadeiro amor fraterno. Hoje compreendo o significado de
“Ninguém é tão pobre, que não possa dar,
Nem tão rico que não necessite receber.”
A evolução do irmão Assis, está sendo mais abrangente que a minha naquele lugar, pois ele custou a entender, mas quando compreendeu começou a investir na fraternidade, enquanto eu investia na piedade. Acreditem meus irmãos aqui quanto mais se reconhece a fraqueza, mais nos fortificamos.
Deo é uma instrutora de jovens, faz bem aquele perfil generoso, que sempre teve na terra. Deo, Vitório, Celeste são instrutores, mas eu sou um estudante e postulante à volta na boa e velha terra.
Mas estou me tornando mais tranqüilo que jamais fui a calma está se tornando meu forte, a paciência um ponto estratégico onde repouso minha fé no amanhã, a soberba caiu em perfeito reconhecimento das minhas falhas e isso me fortifica, a arte continua latente, pois como diz minha amiga Deo: _enquanto você mesmo não a reconhecer como verdadeiro dom de Deus, ela retornara como ponto de partida do eterno recomeço, se preciso for.
_Benito acredito que Deus não te dará asas nem uma Lira, você terá nas mãos um pincel ou quem sabe a baqueta de um maestro ou ainda a caneta hábil de um escritor, mas uma coisa é certa, para ter a verdadeira paz não menospreze os presentes Divinos, quando reencarnado doe –se a beleza das artes, pois elas representarão seu passa-porte para a paz eterna. Estamos nos meados do ano de 2008 do ano de Nosso Senhor e seu tempo está próximo. Um dia quando você menos esperar vai estar de volta ao velho lar, rodeado de velhos amigos, com sua mesma missão, progredir, para habitar mundos menos densos e melhores, mas sempre tendo por diretriz a verdade, a fé, a esperança e a caridade.
Existem duas maneiras fundamentais de se viver: uma é de acordo com a consciência e a outra de acordo com as imposições do meio em que se vive.






Nenhum comentário:
Postar um comentário